Inventário do património artístico de Alcanede e Pernes

Jornadas da História e do Património

Pernes, 4 de julho de 2026

Síntese da conferência do Prof. Doutor Vítor Serrão

O Prof. Doutor Vítor Serrão apresenta alguns dos exemplos de pintura antiga (Fot: S.Dias Barreiro)

O inventário como ponto de partida

Convidado a abrir o ciclo de conferências dedicado ao património artístico, o Prof. Doutor Vítor Serrão, historiador de arte e uma das maiores referências portuguesas nesta área, centrou a sua intervenção na importância do inventário enquanto instrumento indispensável ao conhecimento, à salvaguarda e à valorização dos bens culturais.

Tomando como referência o antigo termo de Alcanede e Pernes, o professor recordou que qualquer investigação rigorosa deve começar pelo reconhecimento do território e pela identificação dos vestígios que chegaram até aos nossos dias. Entre esses testemunhos contam-se a arquitetura religiosa e civil, a pintura, a escultura, a azulejaria, a imaginária, a arte funerária e a arquitetura vernácula, cujo estudo permite compreender a evolução histórica e artística de uma comunidade. Do mesmo modo, salientou que os bens hoje desaparecidos continuam a integrar essa memória coletiva e, por essa razão, devem igualmente ser considerados nos trabalhos de inventário.

Um território ainda por descobrir

Ao longo da conferência, Vítor Serrão chamou igualmente a atenção para um paradoxo. Apesar da riqueza histórica do território de Alcanede e Pernes, uma parte significativa do seu património permanece insuficientemente estudada, consequência de inventários antigos que, por falta de meios ou de condições, deixaram numerosos conjuntos praticamente por identificar. Entre os exemplos referidos encontram-se igrejas, capelas, programas decorativos, conjuntos de azulejaria e obras de pintura, muitos dos quais aguardam ainda um estudo aprofundado.

O Projeto do Tricentenário como oportunidade

Foi precisamente neste contexto que enquadrou o Projeto do «Tricentenário da Notícia Histórica de Alcanede e Pernes», considerando-o uma oportunidade para retomar esse trabalho de conhecimento sistemático. Na sua perspetiva, inventariar não significa elaborar uma simples lista de monumentos; significa construir uma leitura global do território, capaz de integrar tanto os grandes conjuntos artísticos como as manifestações mais discretas da cultura local, sem estabelecer hierarquias entre os diferentes testemunhos patrimoniais.

Pernes: um património artístico de grande valor

A segunda parte da intervenção incidiu sobre alguns dos mais significativos exemplos do património de Pernes. Entre eles, o professor evocou a Capela de Santo António, notável exemplar da arquitetura maneirista erguida durante o século XVII, situada nas proximidades da Torre do Relógio. Deteve-se igualmente na Igreja da Misericórdia, onde salientou a riqueza dos programas pictóricos atribuídos a Miguel Figueira, um dos mais relevantes pintores portugueses da transição entre o Maneirismo e o Barroco. Entre os aspetos analisados, destacou a singular representação de um cavaleiro que segura uma carta, um pormenor iconográfico cuja interpretação continua a suscitar o interesse da investigação.

Capela de Sº António (Fot: S.Dias Barreiro)

Conhecer para preservar

Na conclusão da conferência, Vítor Serrão recordou que o inventário representa muito mais do que um exercício técnico ou administrativo. Constitui um verdadeiro compromisso com a memória das comunidades, sem o qual se torna impossível compreender, proteger e transmitir o legado recebido das gerações anteriores. Conhecer para preservar, preservar para transmitir: foi esta a ideia central que marcou uma intervenção onde a investigação científica surgiu intimamente ligada à responsabilidade cultural e cívica de todos aqueles que trabalham em prol do património.

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