CLAPA: cinquenta anos de uma luta que nasceu nas margens do Alviela

Jornadas da História e do Património

Pernes, 4 de julho de 2026

Síntese da conferência da Dra. Penélope Melo

A Dra. Penélope Melo (fot: L.Melo)

Um rio que faz parte da identidade de um território

«O rio nunca foi nosso. Nós é que somos dele.»

Foi com estas palavras que a Dra. Penélope Melo abriu uma das intervenções mais marcantes das Jornadas da História e do Património. Mais do que recordar os cinquenta anos da Comissão de Luta Anti-Poluição do Alviela (CLAPA), a conferencista convidou o público a revisitar a memória de um território cuja história sempre esteve intimamente ligada ao rio Alviela. Durante séculos, as suas águas alimentaram os campos, moveram moinhos, sustentaram a pesca e acompanharam o quotidiano das populações. O rio não era apenas um elemento da paisagem; fazia parte da vida das famílias e da identidade de Pernes.

O Mouchão: um lugar de encontro e de memória

O Mouchão de Pernes e as suas quedas de água (fot: S. Dias Barreiro)

Antes de o Alviela se tornar um símbolo da luta ambiental, foi um espaço de convívio e de lazer. Penélope Melo recordou o ambiente vivido no Mouchão durante as décadas de 1950 e 1960: as tardes de verão, os concursos de pesca, a Casa de Chá criada por António Nobre, os famosos Pastéis de Santo António, as famílias reunidas junto às quedas de água e os jovens que ali se encontravam aos domingos.

Durante esses anos, o Mouchão figurava entre os lugares mais emblemáticos do Ribatejo, ao lado do Jardim das Portas do Sol, do Convento de Cristo e do Castelo de Almourol. Era um motivo de orgulho para a população local, cuja memória permanece ainda hoje viva entre aqueles que conheceram esse tempo.

Quando o rio começou a adoecer

A mudança não aconteceu de um dia para o outro. Segundo a conferencista, foi um processo lento, marcado pelo aparecimento de descargas poluentes, maus cheiros, águas escuras e sucessivas mortandades de peixe.

Perante esta realidade, alguns habitantes recusaram aceitar o silêncio. Em 1957, Joaquim Jorge Duarte, conhecido por todos como “o Diabo”, promoveu um abaixo-assinado dirigido a Salazar, denunciando a degradação do Alviela. Mais tarde, em 1970, novas denúncias chegaram à Assembleia Nacional, numa época em que contestar publicamente o poder exigia uma coragem pouco comum. Para Penélope Melo, estes gestos representam um dos primeiros grandes movimentos de cidadania ambiental em Portugal.

Quando amar uma terra significa lutar por ela

Em 1976, dois anos após o 25 de Abril, nasceu oficialmente a Comissão de Luta Anti-Poluição do Alviela (CLAPA).

A conferencista deteve-se no significado desta designação. Não se tratava de uma associação dedicada apenas ao estudo ou à reflexão, mas de uma verdadeira comissão de luta, criada para defender um rio que muitos consideravam condenado.

Ao longo de cinco décadas, sucederam-se manifestações, caminhadas, petições, campanhas de sensibilização e inúmeras iniciativas cívicas. Nem todas alcançaram os resultados desejados, mas, como recordou Penélope Melo, a persistência acabou por se tornar uma das maiores forças da associação.

Uma causa que ultrapassou as margens do Alviela

A luta da CLAPA rapidamente ultrapassou os limites de Pernes para se afirmar como uma causa de âmbito nacional. Em 1994, o Alviela recebeu a visita do Presidente da República, Mário Soares, durante uma Presidência Aberta dedicada às questões ambientais. A associação participou igualmente no apoio à organização da histórica manifestação de Ferrel contra a instalação de uma central nuclear, demonstrando que a defesa do ambiente se afirmava cada vez mais como uma causa nacional.

Em 2008, a Câmara Municipal de Santarém distinguiu Joaquim Jorge Duarte com a Medalha de Ouro da Cidade, reconhecendo o papel decisivo desempenhado por aqueles que, desde os anos cinquenta, recusaram abandonar a defesa do rio.

Uma herança para as gerações futuras

Na parte final da conferência, Penélope Melo deixou o registo histórico para dirigir uma reflexão mais pessoal aos presentes.

Ao assinalar os seus cinquenta anos, a CLAPA celebra, acima de tudo, as mulheres e os homens que recusaram permanecer indiferentes. Geração após geração, assumiram a responsabilidade de proteger o Alviela, transformando a defesa do rio num verdadeiro exercício de cidadania, de memória e de compromisso com o território.

Mais do que uma conclusão, Penélope Melo preferiu deixar um desafio às gerações presentes e futuras. A pergunta com que encerrou a sua conferência continua a ecoar muito para além daquela sala:

«Quando chegou a nossa vez, estivemos à altura?»

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