Ler o passado para compreender o presente: manuscritos inéditos de Simão Froes de Lemos

Jornadas da História e do Património – Pernes, 4 de julho de 2026

Síntese da conferência do Dr. José Raimundo Noras

O Dr. José Raimundo Noras apresentou os trabalhos de investigação em curso sobre os manuscritos inéditos de Simão Froes de Lemos (foto: L.Duarte Melo).

Antes de um documento se transformar numa fonte histórica, há horas de leitura, dúvidas, hipóteses e um paciente trabalho de transcrição. Foi precisamente esse universo, quase invisível para o grande público, que o Dr. José Raimundo Noras deu a conhecer durante a sua conferência.

Nos bastidores da investigação histórica

Ao longo da sua intervenção, o Dr. José Raimundo Noras conduziu o público a uma dimensão da investigação histórica frequentemente desconhecida: o trabalho paciente de leitura, transcrição e interpretação dos manuscritos antigos. Tomando como ponto de partida escritos inéditos de Simão Froes de Lemos, mostrou que cada documento representa muito mais do que um simples testemunho do passado. Constitui uma fonte viva, cuja leitura continua a revelar novas perspetivas sobre a sociedade, a cultura e o pensamento do século XVIII.

O desafio de dar voz aos manuscritos

O conferencista começou por partilhar a sua experiência pessoal enquanto investigador, reconhecendo que a paleografia exige tempo, rigor e persistência. A leitura de um manuscrito antigo exige mais do que a decifração da escrita; requer igualmente a compreensão do contexto em que o texto foi produzido, a identificação das referências utilizadas pelo autor e a interpretação de uma forma de pensar profundamente marcada pelo seu tempo.

Entre os trabalhos atualmente em curso encontra-se a transcrição de quarenta e quatro fólios da autoria de Simão Froes de Lemos, um conjunto documental que permitirá aprofundar o conhecimento sobre a sua produção intelectual e disponibilizar novas fontes para futuras investigações.

Muito para além daNotícia Histórica

O manuscrito da Notícia Histórica e Topográfica da Villa de Alcanede (Fonte: Arquivo distrital de Santarém).

Embora Simão Froes de Lemos seja hoje sobretudo conhecido pela Notícia Histórica e Topográfica da Villa de Alcanede, José Raimundo Noras demonstrou que os seus manuscritos abrangem temas muito mais vastos. Entre eles encontram-se reflexões de caráter literário, comentários religiosos, referências à Antiguidade Clássica, episódios da Guerra de Troia e críticas dirigidas a autores da sua época.

Estes textos revelam um homem profundamente culto, cuja formação intelectual assentava tanto na tradição cristã como na cultura clássica. Ao mesmo tempo, permitem compreender melhor os valores, os debates e as preocupações da sociedade portuguesa de Setecentos, sem esquecer que cada documento deve ser interpretado à luz do contexto em que foi escrito.

Os adágios: um património da tradição oral

Entre os manuscritos atualmente em estudo, o investigador destacou uma coleção de adágios que despertou particular interesse. Estas expressões populares, muitas das quais desapareceram do uso corrente, constituem um importante testemunho da cultura tradicional e da sabedoria transmitida ao longo de gerações.

Para José Raimundo Noras, a sua preservação ultrapassa o simples interesse linguístico. Estes provérbios representam uma forma de património imaterial, permitindo compreender modos de pensar, valores e formas de expressão que marcaram a vida quotidiana das comunidades.

A História como um conhecimento em construção

Um dos aspetos mais marcantes da conferência foi a reflexão em torno do próprio trabalho do historiador. José Raimundo Noras recordou que a investigação histórica não produz verdades definitivas. Pelo contrário, constrói-se através do confronto entre documentos, da revisão de hipóteses e da descoberta permanente de novas fontes.

Foi também neste contexto que sublinhou a importância de evitar leituras anacrónicas, defendendo que cada época deve ser compreendida segundo os valores e as circunstâncias do seu próprio tempo. Mais do que julgar o passado, cabe ao historiador procurar compreendê-lo com rigor e espírito crítico.

Memória e responsabilidade

Na conclusão da sua intervenção, José Raimundo Noras recordou que investigar, transcrever e divulgar documentos antigos constitui, acima de tudo, um compromisso com a memória coletiva. Cada manuscrito preservado representa uma oportunidade para compreender melhor aqueles que nos antecederam e para transmitir esse conhecimento às gerações futuras. Foi precisamente em torno desta ideia de responsabilidade que encerrou a sua conferência, evocando uma das mais conhecidas reflexões de José Saramago:

«Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos; sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.» 

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