Do Colégio dos Jesuítas à indústria: um legado que marcou a história de Pernes

Jornadas da História e do Património – Pernes, 4 de julho de 2026

Síntese da conferência do Dr. Raúl Violante

Durante a sua conferência, o Dr. Raúl Violante revisitou três séculos da história de Pernes, desde o Colégio dos Jesuítas até ao desenvolvimento da indústria local (foto: L.Duarte Melo).

Um lugar de conhecimento no coração de Pernes

Ao longo da sua conferência, o Dr. Raúl Violante convidou o público a redescobrir a antiga Quinta de São Silvestre, um lugar cuja história se confunde com a evolução cultural, educativa e económica de Pernes. Muito antes de se afirmar como espaço industrial, esta quinta acolheu, durante cerca de um século, um importante colégio da Companhia de Jesus, tornando-se uma referência regional numa época em que o ensino ainda era um privilégio reservado a poucos.

Uma doação ao serviço da educação

A origem deste estabelecimento remonta ao século XVII, quando D. Ana da Silva, sem descendência, decidiu doar aos Jesuítas a Quinta de São Silvestre e um vasto conjunto de propriedades. Entre os objetivos expressos na sua vontade destacava-se a criação de uma aula de Gramática destinada aos jovens de Pernes e das localidades vizinhas, permitindo-lhes aprender a ler, a escrever e a prosseguir estudos em áreas como o Latim, a Teologia e as Ciências Matemáticas.

Ao longo dos anos, o colégio assumiu igualmente funções de internato, acolhendo estudantes provenientes de diferentes regiões e afirmando-se como um dos principais centros de ensino da região.

A histórica Quinta de São Silvestre acolheu, entre os séculos XVII e XVIII, o Colégio dos Jesuítas de Pernes, antes de integrar o projeto industrial promovido pelo Marquês de Pombal (Fonte: http://www.monumentos.gov.pt)

Um berço de figuras ilustres

Foi também neste colégio que se formaram algumas das personalidades mais marcantes da história cultural portuguesa. Raúl Violante destacou, entre elas, o Padre António dos Reis, reconhecido humanista, políglota e membro fundador da Academia Real da História Portuguesa, bem como o seu irmão, Padre Luís Cardoso, autor do monumental Dicionário Geográfico, obra de referência para o conhecimento histórico e geográfico do reino.

O conferencista recordou ainda António Félix Mendes, natural de Pernes, cuja gramática viria a ser adotada oficialmente durante o governo do Marquês de Pombal, desempenhando um papel importante na reforma do ensino português em meados do século XVIII.

Primeira edição da gramática de António Félix Mendes (Fonte: BnP digital).

1759: um ano de profundas mudanças

Um dos momentos centrais da conferência incidiu sobre o ano de 1759, que marcou uma verdadeira mudança de ciclo para Pernes. A expulsão da Companhia de Jesus por ordem do Marquês de Pombal conduziu ao encerramento do colégio e ao sequestro dos seus bens, encerrando quase um século de atividade educativa.

Foi também nesse ano que faleceu Simão Froes de Lemos, autor da Notícia Histórica e Topográfica da Villa de Alcanede, antigo aluno do colégio e uma das figuras homenageadas nas comemorações do Tricentenário. Para Raúl Violante, esta coincidencia simbólica encerra um importante capítulo da história cultural de Pernes.

Da educação à indústria

O encerramento do colégio não significou o abandono da Quinta de São Silvestre. Poucos anos depois, por iniciativa do Marquês de Pombal, o espaço foi integrado no projeto de modernização económica do reino. Em 1772, o genovês Pedro Schiappa Pietra instalou ali uma fábrica dedicada à produção de limas, verrumas e outras ferramentas agrícolas, dando origem a uma atividade que viria a marcar profundamente a economia local.

Segundo o conferencista, foi precisamente neste contexto que surgiram os primeiros torneados de madeira, inicialmente destinados ao fabrico dos cabos das ferramentas metálicas. Aquela que começou por ser uma atividade complementar acabaria por dar origem a uma tradição artesanal que permanece profundamente ligada à identidade de Pernes.

Um património em permanente transformação

Na parte final da conferência, Raúl Violante mostrou como esta herança continuou a evoluir ao longo dos séculos. As invasões francesas, as dificuldades económicas, a instalação da Companhia das Águas do Alviela e o desenvolvimento da indústria local, transformaram sucessivamente o território, sem apagar a memória das suas origens.

Ao evocar estes acontecimentos, o orador sublinhou que o património não deve ser entendido como uma realidade estática. Pelo contrário, resulta da capacidade das comunidades para preservar a memória dos lugares, adaptando-os às necessidades de cada época sem perder de vista o seu significado histórico.

Conhecer o passado para compreender o presente

Concluindo a sua intervenção, Raúl Violante recordou que a história da Quinta de São Silvestre espelha a própria evolução de Pernes. Ao longo de mais de três séculos, este espaço foi sucessivamente lugar de ensino, de investigação, de inovação industrial e de desenvolvimento económico, permanecendo como um dos mais expressivos testemunhos da identidade local.

Ao revisitar este percurso, a conferência mostrou que conhecer o passado constitui também uma forma de compreender as transformações do presente e de valorizar o património que continua a marcar a memória coletiva da comunidade.

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