Uma Santa Marta Quinhentista na Gançaria
Vitor Serrão
Na igreja de Nossa Senhora da Saúde, matriz de Gançaria, um grande templo erguido em 1920, conserva-se uma pequena escultura pétrea da primeira metade do século XVI que representa Santa Marta. É proveniente da capela dessa invocação que ainda existe nesta aldeia, sede da freguesia mais jovem do Município de Santarém, criada em 4 de Outubro de 1985 por desanexação da Freguesia de Alcanede.
Tive oportunidade de a analisar, em visita junto ao padre Tiago Moita, seu pároco, notando, para além do seu arcaísmo goticizante, as qualidades formais da peça, que é de bitola provincial. Ainda tem vestígios da antiga policromia, que quase por inteiro desapareceu, tal como o atributo (a palma de martírio? Ou o hissope?) que segurava. Deve ser assim, empunhando o hissope e domando o dragão do Danúbio, como aparece Santa Marta numa pintura de um seguidor de Diogo de Contreiras, c. 1550-1560, da Igreja de São Pedro de Torres Novas…

Se o corpo é deveras atarracado, o rosto da santa mártir atesta ainda uma cuidada modelação e o ritmo das dobraduras confere à pose uma certa dinâmica formal. A coifa que cobre a cabeça e os sapatos em bico assinalam referências eruditas. Trata-se de mais uma das boas peças quinhentistas de imaginária sacra que se regista nesta região.

