Serranos, Campinos e Bairrões
(Francisco Serra Frazão, 1936)
“Na Borda d´Água não se é comicihoso por causa de uns palmos de terra ou de umas gavelas de feno. Se tudo aquilo é tão grande e tão rico! Nas serras, por um palmo de terra, porque uma cabra entrou na propriedade alheia, onde tasquinhou duas folhas de couve, pode matar-se um homem, não tanto pelo facto, mas pelo azedume que a discussão conduz…”
“Serras acima, a propriedade está muito dividida: todos têm os seus bocadinhos, criam o seu gado, o azeite das suas oliveiras, o leite das suas cabeças, a lã das suas ovelhas, e até o linho das suas courelas. O homem do Ribatejo não possui nada disto. Dispõe apenas dos seus braços possantes, do seu peito de aço, e da sua têmpera de homem afeito às intempéries. O seu corpo é a sua riqueza. A sua saúde, o seu capital de movimento.”
“O beirão estuda, trabalha, luta, distingue-se nas artes, letras, ciências e na política para fugir à pobreza das suas terras; o homem do Tejo não precisa disso. Pode vir a ser artista, literato, cientista ou político, mas porque o deseja ser, ou porque sente irresistível vocação para o ser, e raramente porque tenha absoluta necessidade de assim proceder.”
“Da palavra Bairro, que assim se chama à parte norte do concelho de Santarém, que abrange todas as terras brancas até ao sopé da Serra dos Candeeiros, precisamente no sítio em que um extensíssimo dente de rocha separa as terras barriscas das terras felgarentas da serra, se derivou a palavra bairrão para significar o habitante do Bairro. Também se lhes chamou bairrenhos e bairriscos; mas a designação que tem prevalecido é a de barrões, que nem sequer se toma já em sentido insultuoso ou deprimente.”
