As Antigas Casas da Câmara de Pernes: um património ao serviço da memória coletiva

Jornadas da História e do Património

Pernes, 4 de julho de 2026

Síntese da conferência do Dr. Luís Mata

Um edifício para compreender a história de Pernes

Convidado a apresentar o projeto de musealização das Antigas Casas da Câmara de Pernes, o Dr. Luís Mata conduziu o público numa viagem pela história institucional da vila, mostrando como um único edifício pode testemunhar vários séculos de organização política, administrativa e social. Através da reconstituição da sua evolução e das funções que desempenhou ao longo do tempo, demonstrou que este conjunto patrimonial constitui hoje um dos mais importantes símbolos da identidade de Pernes.

Uma história marcada pela procura de autonomia

A conferência começou por recordar o percurso histórico de Pernes, cuja evolução esteve durante séculos intimamente ligada a Alcanede. Entre os acontecimentos evocados destacam-se a doação do território à Ordem do Templo por D. Afonso Henriques, em 1147, e, alguns anos mais tarde, a integração da vila na Ordem de Avis, circunstâncias que contribuíram para uma complexa organização administrativa e jurisdicional.

Luís Mata chamou igualmente a atenção para um facto pouco conhecido: o Foral Manuelino de 1514, concedido por D. Manuel I, foi atribuído simultaneamente a Alcanede e Pernes, constituindo um caso singular na história administrativa portuguesa. Apesar da autonomia municipal alcançada apenas em 1836, o concelho seria extinto menos de vinte anos depois, em 1855, no âmbito da reforma administrativa conduzida por Rodrigo da Fonseca Magalhães. Estes episódios ajudam a compreender a construção da identidade histórica da vila e o significado simbólico das antigas Casas da Câmara.

A Torre do Relógio: um símbolo de poder e continuidade

Elemento mais emblemático do conjunto, a Torre do Relógio ocupou um lugar central na conferência. Embora a tradição local lhe atribua uma origem romana, as suas características arquitetónicas apontam, segundo o conferencista, para uma construção medieval, posteriormente adaptada às necessidades do poder municipal.

Ao longo dos séculos, a torre desempenhou diferentes funções: posto de vigia, prisão e, mais tarde, torre do relógio. Esta sucessão de usos faz dela um testemunho particularmente expressivo da evolução da administração local. O atual mecanismo relojoeiro, instalado em 1936 pela firma José Pereira Cardina & Filhos, da Nazaré, continua ainda hoje em funcionamento, perpetuando uma ligação entre o tempo presente e a memória coletiva da vila.

Arquitetura municipal e valorização patrimonial

Luís Mata destacou igualmente o valor arquitetónico das antigas Casas da Câmara, enquadrando-as no conjunto dos edifícios municipais portugueses estudados pelo historiador Carlos Caetano, cuja investigação demonstrou a importância deste património na compreensão da organização política dos antigos concelhos.

Segundo o conferencista, o edifício de Pernes apresenta uma particularidade rara: a cadeia funcionava numa torre autónoma, solução pouco frequente no contexto da arquitetura municipal portuguesa. Esta singularidade reforça o interesse histórico do conjunto e justifica a sua preservação e valorização.

Um museu pensado para as pessoas

A segunda parte da intervenção foi dedicada ao projeto de musealização, desenvolvido de acordo com os princípios da Nova Museologia, corrente internacional que, desde a década de 1970, defende uma relação mais próxima entre os museus, o território e as comunidades.

Neste contexto, Luís Mata recordou exemplos como os ecomuseus franceses, o Ecomuseu do Seixal, o Museu de Mértola e o Museu da Luz, instituições que demonstram que um museu pode ser muito mais do que um espaço destinado à conservação de objetos. Em Pernes, esta filosofia traduziu-se na criação de um percurso expositivo onde os edifícios, os objetos, as fotografias e os testemunhos orais dialogam com as memórias da população, transformando o visitante num participante ativo da história local.

Preservar a memória, reforçar a identidade

Na conclusão da conferência, Luís Mata sublinhou que o Núcleo Museológico de Pernes integra a rede polinucleada do Museu Municipal de Santarém, contribuindo para dar visibilidade a uma história que dificilmente encontraria espaço num museu de âmbito mais generalista.

Ao recuperar as antigas Casas da Câmara e ao devolver-lhes uma função cultural, o projeto reafirma a importância da memória local enquanto elemento fundamental da identidade coletiva. Mais do que conservar um edifício, trata-se de preservar um legado histórico, permitindo que as gerações atuais e futuras compreendam melhor o território onde vivem e o papel que este desempenhou ao longo da história.

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