Ah, nunca a História foi, como hoje, tão necessária!
Vitor Serrão – Historiador de arte; professor catedrático emérito da Universidade de Lisboa

Não fará sentido a vida sem a dimensão da espiritualidade: sejamos nós crentes, praticantes ou passivos, agnósticos, ou simplesmente não‑religiosos, existe sempre uma dimensão inominável que palpita e tudo supera. Theodor Adorno chamou a essa dimensão o Incognoscível. Mas ela também não faz sentido sem memória histórica. Aliás, ambas as componentes se tornaram propriedades unas e indivisíveis do lado são da humanidade, aquele lado que se opõe ao esquecimento, à indiferença, ao ódio e à barbárie solta.
A Ciência da História é uma coisa muito séria, que regista, informa, descobre, ensina, avisa, seduz. Com ela aprendemos sempre, tanto nos exemplos abnegados como nas violências e misérias, nos magnos e mínimos eventos, enfrentando espumas efémeras, desmemórias instaladas e deliberados ou inevitáveis apagamentos que geram revisões grosseiras.
Entre as fímbrias do senhor Tempo que resistem às imperfeições da memória, o documento, o testemunho das artes, a arqueologia, a literatura, a fotografia, a crónica, o registo dos quotidianos e as migalhas factuais dão‑nos sempre a margem necessária para reconstituir o passado, perceber melhor o presente e, desejavelmente, imaginar o futuro sem aquelas manchas odiosas que já se viveram.
Sim, temos que nunca será assim que as coisas se vão passar no devir, mas é uma bela utopia desejar que o amanhã seja melhor, mais fraterno e com mais saber… A História‑Ciência, essa, continua presente como pilar de civilização e barómetro de humanismo. Mas quando a mentira, a insânia, a alarvidade, os gritos, a deturpação, a inverdade e o ódio se sobrepõem ao debate sério que assenta em conhecimento, microfactualidades e argumentação sólida, que resta senão o deserto da demagogia?
Tal vem a propósito, entre outras coisas da espuma presente, do debate de José Pacheco Pereira com o líder da extrema‑direita, expoente do paganismo iconoclástico e do belicismo mascarado de praga divina, que não esconde as simpatias de Salazar e que chamou “revolução miserável” ao 25 de Abril, o Dia da Liberdade… Um historiador sério prestou‑se a um espectáculo degradante sobre a História do Portugal recente, julgando que a força das ideias superava a alarvidade e ignorância de quem usa a História como arma de desinformação. Presto vénia a tanta coragem, mas só posso lamentar o resultado deplorável.
E viva, pois, a Ciência da História: eppur si muove, mesmo sendo tão maltratada, como se viu… Para quem ainda quer saber, e confio que sejam muitos, o longo período do Estado Novo foi um continuado tempo de medo, repressão, atraso, pobreza, fome, prisões, tortura, obscurantismo e corrupção, e isso é um facto histórico comprovado, aqui e nas colónias, ainda com latejos de chagas na memória de muitos. Mas que importa isso para os seus nostálgicos, os inimigos da Democracia de Abril?
É por tudo isto que os valores da História nunca foram tão importantes como nestes tempos de chumbo em que se decide entre o humanismo multilateralista e a barbárie predadora — e isso é também um facto…
Historiador de arte; professor catedrático emérito da Universidade de Lisboa
