Alcanede e o seu património cultural imaterial
Alcanede e o seu património cultural imaterial
Assinala-se em 2026 o tricentenário da “Notícia Histórica e Topográfica da Vila de Alcanede”, obra pioneira dedicada ao antigo “termo de Alcanede”, redigida em 1726 por Simão Froes de Lemos.
Este manuscrito constitui um testemunho essencial sobre a história, o património natural e edificado, as instituições, os costumes e a toponímia de um território atualmente repartido por três concelhos — Alcanena, Rio Maior e Santarém — e treze freguesias — Abrã, Alcanede, Alcobertas, Amiais de Baixo, Arneiro das Milhariças, Espinheiro, Fráguas, Gançaria, Louriceira, Malhou, Minde, Pernes e São Sebastião.
Três séculos depois, a obra mantém plena atualidade como fonte de referência para investigadores e para todos os interessados na história local e regional.
Homenagear Froes de Lemos e a sua obra no seu tricentenário é, não apenas um ato de justiça, como também uma oportunidade para levar mais longe o conhecimento histórico e patrimonial das vilas de Alcanede e de Pernes, e das localidades acima indicadas, valorizando uma herança comum com quase nove séculos.
Neste contexto, foi concebido o programa “Tricentenário da Notícia Histórica de Alcanede e Pernes”, envolvendo cidadãos e instituições, com atividades a decorrer ou a iniciar ao longo de 2026.
Uma das linhas de ação do programa, no eixo “envolvimento das comunidades locais”, consiste no levantamento, preservação e divulgação do património cultural imaterial das comunidades de Alcanede e de Pernes, nomeadamente dos saberes-fazer e das técnicas, artes e ofícios tradicionais, bem como da tradição oral de provérbios, lendas e histórias específicas, das festividades civis e religiosas de antigamente e ainda da gastronomia típica desta importante região do norte do Ribatejo.
De acordo com o documento do Ministério da Cultura que orienta as recolhas para este trabalho:
“(…) O Património Cultural Imaterial (PCI), corresponde às tradições que herdamos dos nossos antepassados e que são transmitidas entre gerações, de pais para filhos, de avós para netos, ou às vezes entre pessoas de uma mesma geração. (…) Uma característica muito importante do Património Imaterial é o facto de as pessoas reconhecerem essas tradições como fazendo parte importante da sua história e da sua cultura, dando-lhes um sentido de pertença a uma comunidade, como por exemplo o local onde nasceram, onde vivem, ou onde trabalham. (…) O Património Imaterial está sempre associado a pessoas, pois são elas que garantem a sua existência, vivenciando-o e transmitindo-o às gerações futuras. E mesmo quando essas expressões deixam de ser vivenciadas, como por exemplo uma técnica tradicional (artesanal, agrícola, pastoril, piscatória, artística ou outra) que deixou de ser utilizada, é, em muitos casos, graças à memória das pessoas que podemos ainda conhecer essas tradições.”
Neste sentido, uma equipa de voluntários está a recolher testemunhos junto das comunidades locais, sobretudo junto de pessoas mais velhas que ainda mantêm vivas as recordações dos tempos idos, procede também à consulta de livros já publicados, à recolha de imagens e de explicações sobre lugares, edifícios ou ruínas, alfaias agrícolas, instrumentos, objetos e roupas antes usados e recolhendo também cantigas, tradições e fotos representativas de outras memórias ligadas à cultura popular do território.
As pesquisas incidem particularmente sobre temas como: olival e azeite; pedra; fornos de cal; cerâmica; cereais e pão; vinho; pastoreio…
A finalidade deste trabalho envolve a sua futura edição e publicação em livro e em suportes digitais, preservando-se assim um valioso património cultural imaterial das nossas comunidades, hoje quase esquecido, disperso e pouco valorizado, que merece ser divulgado.
MCA
20.03.2026
